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“A tu per tu” com Tulipa e Gustavo Ruiz

Ela tem um nome poético. Nome de flor. Singular como as suas canções, inspirado como seu jogo de palavras, cativante como a sua presença no palco, potente – mas ao mesmo tempo doce – como a sua voz. Com todas essas qualidades em ação, o resultado não poderia ser diferente: Tulipa Ruiz – acompanhada pelo irmão e parceiro Gustavo, ao violão – conquistou o público durante a sua primeira turnê na Itália que, em maio, passou por Milão, Bolonha, Florença e Roma.

A dupla ofereceu aos espectadores um contagiante espetáculo que nasceu para divulgar o disco Tu. A cumplicidade entre os dois foi comprovada sob os holofotes e longe deles, quando eles receberam o Itália em Português, em Milão, para uma entrevista exclusiva ou, como se diz em italiano, “a tu per tu” (cara a cara, em português).

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Foto: Julye Jacomel

IEP: No Brasil, vocês já são conhecidos, seguidos por um público amplo. Esta é a primeira turnê de vocês na Itália, passando por quatro cidades. Como é sair da zona de conforto, ou seja, cantar no exterior para um público novo?

Tulipa: É uma adrenalina diferente. É muito gostoso esse momento da conquista e, quando estou fora do Brasil, eu tenho que exercitar a conquista de outras maneiras porque não necessariamente quem está do outro lado entende o meu idioma. Portanto, nesses shows em outros países, eu presto muito mais atenção no que eu falo com o meu corpo, no que eu falo com a melodia, no que o Gustavo está falando com a harmonia. E’ um outro tipo de comunicação, e eu acho uma delícia. Mas é sempre uma surpresa como tudo isso vai ser percebido pelo público. Nós estamos muito animados com esse essa turnê e esperamos que todo mundo aproveite, desfrute dessas apresentações.

Gustavo: Para mim, é sempre uma sensação de adrenalina, novidade, estreia, recomeço. Porque em cada país que passamos o sentimento é sempre de recomeço. Às vezes a gente leva dois, três anos para voltar, então dá aquele frio na barriga do início mesmo, energia de estreia. É uma grande responsabilidade, mas ao mesmo tempo tem sido interessante porque nas primeiras vezes em que saímos do Brasil foi sempre esse formato voz e violão e temos recebido críticas legais. No Brasil, nos últimos anos, nos vínhamos nos apresentamos com banda, só que agora, com o álbum Tu, que é principalmente voz e violão, esse outro formato ficou ainda mais legitimado.

IEP: O show da turnê Tu no exterior é o mesmo que vocês fazem no Brasil? 

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Tulipa: No Brasil, a formação é voz, violão e, como no disco, tem ainda a percussão. Além disso, tem toda uma narrativa de luz e uma equipe grande trabalhando no espetáculo. Na Itália, estamos fazendo uma turnê promocional, só eu e Gustavo, uma espécie de começo de namoro com a Itália. É a ideia é, das próximas vezes, vir com o show completo.

Gustavo: E o repertório aqui é pouquinho diferente, é mais abrangente do que o do show do Brasil. A escolha das músicas toca um pouco nos outros discos, não só no atual.

IEP: Qual a impressão que vocês têm da Itália? Sei que, faz alguns anos, vocês fizeram um show em Bari, não era exatamente uma turnê. Agora vieram para Milão e vão estar também em outras cidades. Enfim, do sul ao norte, como vocês vêem esse país?

Tulipa: Ir para Bari, na Puglia, foi como uma experiência cinematográfica: conhecemos praias maravilhosas, passamos por cidades pequenininhas, parecia que estávamos em um filme. Já Milão é uma cidade cosmopolita – é como se existissem várias Europas dentro de Milão, várias capitais em uma só; eu vou precisar de mais tempo para entendê-la, sabia?

Gustavo: Nós temos tido uma impressão bastante carregada por um sentido gastronômico. Temos, sim, olhado a cidade, mas o Toco (ndr: Tomaz Di Cunto, o empresário da dupla na Itália) tem nos levado a vários lugares bacanas, está nos apresentando bastante esse aspecto de Milão.

IEP: Bom, já que a culinária tem sido um quesito importam nessa turnê, eu gostaria que vocês dessem uma dica de um prato ou um restaurante que vocês tenham apreciado.

Tulipa: Ontem fomos ao Rose e Gabrielle, que fica aberto até muito tarde, o que é uma coisa rara em Milão. Nós tínhamos ido gravar o programa de rádio da Mônica Paes (ndr: Avenida Brasil, na rádio Popolare, um dos mais renomados programas sobre música brasileira) e saímos de lá depois de meia-noite, então nos indicaram esse restaurante, onde eu comi a melhor lasanha da minha vida. E o atendimento é fantástico. É um lugar simples, mas muito bom; muitos músicos, muitos atores vão lá porque oferece essa facilidade do horário e tem uma clima ótimo. Ótima dica do Giordano Di Fiori, que conduz o programa com a Mônica.

Gustavo: Essa forte ligação com a comida, com os restaurantes acaba sendo uma rotina para o músico, especialmente quando a gente viaja muito. O nosso roteiro é quase sempre: teatro, restaurante, hotel.

IEP: Tem algum lugar na Itália no qual vocês sonham tocar?

Tulipa: Eu gostaria muito de tocar em Roma, no Parco della Musica.

Gustavo: O Umbria Jazz também é um nosso objetivo, assim como o Blue Note Milão.

 

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Foto: Julye Jacomel

IEP: O disco “Tu” foi registrado em Nova Iorque, com produção do Gustavo e do francês Stéphane San Juan. Nesse CD, Tulipa cantou em espanhol com o Adan Jodorowsky. Recentemente, Tulipa lançou também o single “Cura di Te”, versão italiana da canção “Prumo”, assinada pelo Tomaz Di Cunto e Andrea Sbaragli. Vocês se sentem cidadãos do mundo?

Tulipa: Sair do próprio país é uma responsabilidade muito grande porque você se torna embaixador da sua cultura. Quando você está exterior, é necessário, primeiro, explicar todo o seu contexto, de onde você vem, para depois chegar à música. Por outro lado, quanto mais você viaja, mais você vai conhecendo e se misturando com outras culturas. Nós fazemos música pop, que é um gênero muito antropofágico, muito generoso, o que facilita muito essa troca. Por exemplo, “Cura di Te” é a versão de “Prumo”, mas parece o contrário, parece que a canção original é a italiana. A gente gravou uma canção em japonês, uma versão de “Quando eu achar”, e aquela música, naquela língua, ficou parecendo a original também. O pop leva a isso, exatamente porque é um estilo muito misturado. Eu não vou cantar em japonês no Brasil, mas eu acho um grande barato poder estar no Japão e cantar na língua local, acho generoso, até porque eu gosto da melodia, da sonoridade. Acho que é uma troca mesmo, uma consequência do fato de sair pelo mundo conhecendo outras pessoas que fazem música.

Gustavo: Eu concordo, é um reconhecimento de códigos. A gente faz esse trabalho em outras línguas com muito respeito, é uma homenagem. Não sabemos falar italiano; muito menos, japonês, mas é praticamente uma homenagem. E essa é uma tradição que se perdeu um pouco. Nos anos 60 e 70 havia muito mais esse costume de fazer versões. “A banda”, do Chico Buarque, foi gravada em diversos idiomas, e hoje quase não se faz isso, mas nós achamos uma coisa legal. Por exemplo, nós gravamos “Efêmera” em espanhol. Só que a gente vai com cuidado, fazemos isso nos países onde estamos entrando e com letristas que possam criar versões bacanas. E’ importante que as sonoridades tenham a ver, que conversem; é um trabalho autoral mesmo.

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Foto: Julye Jacomel

IEP: Tulipa, você tem uma grife de camisetas com as suas ilustrações, a Brocal. Como é estar na capital da moda italiana?

Tulipa: Aqui você vê o quanto a modelagem faz sentido. É tudo muito bem recortado, com um caimento muito bem cuidado. O corte daqui é algo que eu nunca tinha visto, muito preciso, desenhado. Uma coisa que me impressionou é que as pessoas idosas são muito elegantes.

IEP: É verdade que as suas camisetas são inspiradas em músicas?

Tulipa: Eu comecei a desenhar a partir da música, vendo capa de disco. Então eu sempre gosto de pensar a uma imagem quando eu crio uma canção, mas não necessariamente as estampas da Brocal têm ligação com alguma música.

IEP: A pergunta é: tem a possibilidade que alguma canção italiana inspire uma ilustração sua?

Tulipa: Sim, sim, claro. Faz todo sentido. E estou até perto, por assim dizer, já que desenho todo mês para o “Le Monde Diplomatique”, ilustro muitos textos franceses.

IEP:Tem algum cantor italiano que os tenha influenciado ou que vocês admiram?

Tulipa: O “Dancê”, que é o nosso disco anterior, que contém “Prumo” (a canção que, come contamos, ganhou depois a versão “Cura di Te”), foi inspirado muito na sonoridade de um músico italiano chamado Pino D’Angiò. Ele tem uma música chamada “Una notte da impazzire”, que nos pautou muito para fazer aquele álbum. Talvez seja por isso que eu tenha essa sensação que “Cura di Te” é a canção original e não “Prumo”.

Gustavo: Eu gosto muito do Domenico Modugno. Eu tenho uns vinis dele, uns discos com uma orquestração linda!

IEP: Vocês já compuseram música em turnê? Já deu tempo aqui?

Tulipa: Já fizemos várias; sempre fazemos. Aqui, ainda não conseguimos.

IEP: Próximos passos?

Tulipa: Lançamento do “Tu” em vinil, turnê no Japão, shows na Europa, fazer clip do disco.

Gustavo: No final do ano, a gente já começa a pensar na pré-produção do disco novo, que vai ser com banda.

IEP: Vai ser com banda para se diferenciar do “Tu”, que é voz e violão?

Tulipa: O “Tu” nasceu sem ser programado. Na verdade, nós estamos ainda na turnê do Dancê, mas esse show do “Tu” acabou sendo criado para algumas apresentações no exterior e para uma, em São Paulo, na Casa de Francisca, um lugar lindo e intimista. Aí, acabamos nos apaixonando de novo pelas canções do jeito que elas nasceram e resolvemos que fazer o disco para tirar uma espécie de “fotografia” delas, e se deixássemos passar perderíamos essa oportunidade. Deveria ser um disco só de releituras, mas no meio do processo acabamos nos empolgando e compondo coisas novas, e saiu um disco maior do que esperávamos. Ele é uma ponte de ligação com o próximo disco.

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Foto: Julye Jacomel

IEP: Trabalhar com irmão, viajar com irmão. Como é?

Tulipa: Temos uma diferença de idade pequena: um ano e meio. O nosso pai é músico, nossa mãe é apaixonada por música e, com isso, nós crescemos ouvindo os mesmos discos, o que nos aproximou muito. Além disso, os nossos amigos são os mesmos, a gente sai junto, portanto, trabalhar juntos nós tiramos de letra. Assim como com o nosso pai, que faz parte da banda, é guitarrista, tocou com o Itamar Assumpção, é critico de musica. A gente pode dizer que ele é o cara mais “jovem” da nossa galera. Não existe essa história de mostrar música nova para ele; quando você apresenta algo novo, descobre que ele já conhecia, já tinha baixado antes; quem mostra novidade para a gente e os nossos amigos é ele. Confesso que eu demorei a entender que poderia trabalhar com eles, só aos 30 anos eu compreendi que cantar poderia ser um ofício, poderia pagar meu aluguel. O Gustavo sempre soube que era essa a estrada dele.

Gustavo: Eu me descobri músico muito cedo; trabalho como músico desde moleque.

IEP: Como é fazer mala para quem faz show e a cada dia tem que estar em uma cidade?

Tulipa: A primeira vez que eu vim para a Europa, a minha mala foi extraviada. E foi uma viagem de um mês e só no final eu a recebi de volta. A solução foi ir comprando coisas no caminho. Foi aí que eu comecei a exercitar o meu poder de síntese.

IEP: Nesse caso, o que não pode faltar na mala de vocês?

Tulipa: Uma roupa de frio, uma de calor, um biquíni, uma canga. Gosto de ter uma mala mais vazia para poder levar umas coisas para casa. Eu costumo voltar com a mala cheia de chás. A minha cozinha é completamente maluca, com produtos dos mais diversos países. Hoje eu saí e fiquei com vontade de comprar pratos, mas aí pensei: “Tulipa, não viaja!”

Gustavo: Na minha, não pode faltar amoxicilina. Uma vez eu tive uma amidalite em Portugal e fiquei muito mal; depois disso, não viajo sem. Mas a minha mala é bastante econômica, não viajo com a mala repleta. Se a viagem é longa, lavo as roupas ou vou comprando umas coisinhas. E nesse caso é uma turnê mais simples, eu trouxe somente o violão; quando é com banda, eu tenho que carregar mais instrumentos. Desta vez, passei em uma loja de discos aqui em Milão, a “Serendeepity”, e estou levando uns vinis para casa.

Matéria por Paula Acosta

 

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